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casa das artes
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Recordar o 15 de Agosto – as boas memórias

Neste dia é um sem número de festas que se festeja em várias localidades portuguesas a homenagear várias santas ou santos: Senhora de Todo-o-Mundo, Senhora da Aparecida, Nossa Senhora da Assunção e outras mais. Mas a que quero recordar é a Senhora de Todo-o-Mundo da freguesia de Figueiró que faz fronteira com Freamunde.
Esta festa, desde que me lembro, já lá vão mais de sessenta anos, era bastante concorrida e os foliões na maioria Freamundenses, que para ali se deslocavam a pé, dado a proximidade de uma e outra terra, para saborear o melão e a melancia, ouvir um bom concerto de música dado que os festeiros primavam pela escolha de boas bandas para ali actuarem.
Era “puto”, via o aglomerado de pessoas que para ali se deslocavam, morava no lugar da Bouça, ponto obrigatório de passagem, e admirava ver tanta gente, parecia “bichas de pinheiro” em fila. Com o decorrer dos anos também passei a engrossar essas “bichas de pinheiro” para me inteirar da festa de Senhora de Todo-o-Mundo.
Assim, lá me metia a caminho passando pelo lugar de Bussacos, último lugar de Freamunde, que confina com Figueiró.
Naquele tempo, quem ia a pé, ia por uns carreiros que iam ter ao arraial da festa. Logo na entrada havia uns montes, onde os apreciadores do melão e melancia aproveitavam a sua sombra para ali apreciar e saborear o dito melão e melancia.
Como disse, era “puto”, quando ali passava olhava para um lado e outro a ver se alguém oferecia uma fatia. Os tempos eram “duros” e estes suculentos frutos não estavam à disposição de qualquer carteira.
Chegado ao arraial ali via o senhor António “Caçoila”, um Freamundense, que ali se deslocava com a sua carroça cheia de melões e melancias para vender e assim aumentar o seu pecúlio semanal.
Apregoava com frases próprias para enaltecer o seu artigo ao qual me punha a admirar e ver as pessoas a retorquir o preço. É caro: – diziam. Mas o senhor António “Caçoila” retorquia que só é caro o que não presta e os seus melões e melancias eram de primeira qualidade. Que se fosse preciso “calava” um para demonstrar a sua qualidade. Pensava para mim: – calar! Então o melão e a melancia já não estão calados! Depois é que me apercebia que se tratava de um pequeno golpe de faca ou navalha para mostrar como era o seu “miolo” (interior).
A língua portuguesa tem cada significado! – Dizia eu para os meus botões, que aliás não eram muitos, porque no dia anterior estive a jogar à “forma” – como apelidávamos o jogo do botão – em que tive de arrancar um ou outro para pagar a dívida do jogo.
A romaria estava carregada de gente. O Largo da Senhora de Todo-o-Mundo estava repleto. Debaixo das frondosas árvores que ali existiam eram colocados os coretos para as Bandas de Música ali actuarem e o público ali à sombra ouvir as referidas bandas. Não existia a SIC e a TVI para dali fazerem um directo e nem estávamos na época da informática como hoje. Assim as filarmónicas eram requisitadas para dar mais ambiente à festa.
A de Freamunde era sempre a convidada e passava a ser a banda da festa. Para quem não saiba a banda da festa é a que está incumbida de tocar e cantar na missa de festa e dar início ao concerto. Hoje não é tanto assim no que concerne à parte da missa cantada. Todas as terras têm o seu grupo coral e é este que canta na missa de festa.
Depois assistia à procissão e nessa altura era uma das melhores que se fazia no concelho assim como as festas de Figueiró o eram.
Acabada esta, dava-se o “combate” final entre as filarmónicas e a festa tinha o seu final. Era o regresso a casa.
As “bichas de pinheiro” formavam novamente a fila e lá vínhamos cantando e rindo. No lugar de Bussacos passávamos debaixo de umas ramadas e os cachos de uvas com o seu pintor faziam a delícia dos nossos olhos. Um ou outro aventurava-se a cortar um cacho, mas tinha-se logo a afronta da família dos “Medonhos”, tinha uns terrenos de cultivo e, ali estavam como raposa a olhar para a vinha. Pudera. Naquela altura e derivado à fome a ganapada aproveitava essas ocasiões para a “matar”.
Hoje ainda continuam muitos Freamundenses a ir ali para ouvir a banda de Freamunde. Sim! Desde que se celebra a festa da Nossa Senhora de Todo-o-Mundo a banda de Freamunde é sempre convidada. Aliás, a banda de Freamunde quase que parecia que era de Figueiró. Houve um ano que não a convidaram e a festa de Figueiró foi um malogro. A partir daí a sua presença passou a ser assídua. Ainda hoje assim acontece.
Só que deixei de ir ali ouvir os concertos das bandas. Como eu, julgo que vários Freamundenses. De há uns anos a esta parte as bandas que ali vão é a de Freamunde e a Doze de Abril, de Travassô, Águeda.
Um ano os festeiros não convidaram a de Freamunde para ser a banda da festa. Ouvi elementos da direcção da banda de Freamunde a lamentarem-se dessa desfeita. Também ouvi vários Freamundenses a queixarem-se da forma que a banda estava a ser recebida. Que havia habitantes de Figueiró que menosprezavam a banda de Freamunde. Que esses habitantes de Figueiró – pró Paços – faziam tudo para denegrir a imagem da banda de Freamunde. Até a rivalidade do futebol ali se fazia sentir.
Um dia em conversa com um elemento da direcção da banda de Freamunde perguntei-lhe se no dia quinze de Agosto não recebiam convites de festeiros de outras terras para a banda de Freamunde ali se deslocar. Recebi como resposta que neste dia não faltavam convites.
Então perguntei. – Como podem ficar ofendidos com tais desfeitas que recebem por parte dos Figueiroenses – pró Paços? Recebi como resposta que o facto de ali irem é que a festa é próxima o que dá até para os músicos irem a pé, se assim entenderem, e que derivado a isso e haver muitos Figueiroenses – pró Freamunde, era o motivo para ali continuarem a ir.
Fiquei convencido, mas nunca mais ali pus os pés na festa da Senhora de Todo-o-Mundo. Sei que a minha falta não é sentida, mas não gosto que gozem com Freamunde, embora seja um mínimo de pessoas. É que sou como diz o ditado: quem meu filho beija minha boca adoça. Não é esse o caso, mas… sim o motivo.
Pode ser uma imagem de 2 pessoas e texto que diz "Havia festa em Figueiró. Quem não gostava de à Senhora de Todo-o-Mundo, saborear em pleno Agosto "um melão com vinho bom"? Vemos aqui, da esquerda para direita: Quim Meireles, José Maria Veloso, Luís "Caramancho" Claudino Meireles, António Alves, David Meireles, Arnaldo "Siga-a-Rusga" em cima, Teodoro Freire."
Por Manuel Pacheco