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casa das artes
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Os Sub-23 da política – liberdade e trabalho

Procuremos o encontro entre um português de 60 anos com outro de 20. As memórias de cada um, num diálogo aberto, precisam de um dicionário para que o diálogo possa acontecer. Isto nos conceitos. Mas se falarem de sensações e experiências do quotidiano, provavelmente, a gargalhada será o caminho.

– O quê, avô, isso era assim?

– Oh minha neta, para onde vais?

A noção de liberdade

O avô explica que os costumes eram respeitados dentro de uma norma comportamental, explícita e inequívoca, e os comportamentos – quase todos unívocos – tutelados por critérios definidos por senhores vestidos de preto e brilhantina no cabelo. As notícias, essas, eram filhas de outros senhores e eram pouco importantes dado que poucos sabiam ler, pois a escola tinha a concorrência do trabalho no campo que era preciso alimentar os (muitos) irmãos, aproveitando a graça do sol e o afago da chuva. Deus é grande!

A neta mostra o mundo na palma da mão, e explica que hoje o mundo é plano (e não redondo), tem amigos em todo o lado mas não sabe o nome do vizinho. Fala português e “estrangeiro” , visita (barato) França e outros países que o avô apenas conhece por em dados tempos ter temido esses nomes que lhe lembraram a Guerra.

A noção de trabalho

O avô pede que a neta olhe para os campos que ainda restam. Ali está enterrado o tempo dos seus. Foi lá que mantiveram o sustento da família (o seu orgulho) quase sempre sem salário, sendo remunerados por trocas de alimentos dados pela terra e o “trabalho do homem”. Davam graças pelo sol e pela chuva, pagavam a décima e no dia 1 de Maio agradeciam a São José, o dia dele.

A neta muda de emprego várias vezes ao ano, mais vezes do que todas as camisas trocadas numa vida pelo avô, e percebe mal a narrativa de outrora. Ela compra ovos no supermercado, frango pronto a comer, e essa coisa da terra não se vê no telemóvel. Esquece avô.

O avô esclarece que a sua maior alegria é ver a neta “linda como o sol”, esperta (andou e anda na escola), “ela vai ter um futuro melhor que o meu” (alegria escondida).

O diálogo é carinhoso. Ele assenta no que realmente interessa – o sentido da pertença que nos abraça e nos explica o sentido dos acontecimentos. O avô continua curioso (às vezes perplexo) com a rapidez dos acontecimentos (que apelida de confusão) mas entusiasmam a neta no sofreguidão do carrossel das novidades. E se não se interessa muito pela coisa pública (política), mostra no telemóvel a última novidade:

-Oh avô, olha-me para estas sapatilhas!!!! Posso mandá-las vir da China, são tão bonitas, não são?

-Oh minha rica filha, como isto é agora; na tua idade comprava na feira umas “chipas” para o verão e umas “chanquas” no tamanqueiro de Freamunde, e tu queres umas sapatilhas da China?

-Tamanqueiros, avô?

-Deixa lá isso. E quanto custam as tais sapatilhas?

-250 euros!

-50 contos?

O avô lembra-se, mas não explica, que com esse dinheiro na sua mocidade seria o homem mais rico da aldeia. Mas isto é de difícil compreensão – ele não andou nas escolas de agora.

Mas o avô guarda em segredo a razão do seu descanso. Quando a neta nasceu, passou a receber do Governo de agora um dinheiro chamado “reforma”. Estava tão habituado a viver sem ele que mantendo os hábitos da terra o acumulou numa conta bancária – daquelas com dinheiro e sem créditos. E assim disse:

-Manda lá vir as sapatilhas chinesas. Que sejam tão bonitas como tu!