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casa das artes
2 anos 10 meses 1 dia

Os pelourinhos dos Senhores Presidentes

Numa atracção para o passado, o senhor presidente recém eleito, para último mandato, restaurou a edição de O Pelourinho. Fê-lo com gáudio e até com espírito fraternal mas sobretudo por achar que este é o caminho de uma democracia plural e transparente.

Com alguma memória, encontramos estes argumentos também na oportunidade de lançamento da Televisão do Município que – como está à vista de todos -, constitui um exemplo, para todo o país, de isenção, pluralismo e sobretudo sentido ético na promoção do diálogo interpartidário.

Apenas se não percebe a “ingratidão” dos deputados da oposição que nas assembleias municipais mostram não entender esta hermenêutica presidencial. Ela está à vista e agora servida em segunda plataforma – O Pelourinho – e permanentemente actualizada no Facebook.

Também se percebe a autoridade que subjaz a esta edição. Ela brota da competência que ele próprio assumiu de ficar com o pelouro da “comunicação” (outrora nas mãos de Paulo Ferreira).

Lembremos que na história portuguesa o Pelourinho, também designado pelo termo picota é uma coluna de pedra, situada sempre no centro das localidades e onde (outrora) se exercia a justiça expondo-se assim os “criminosos” da época à decisão do Senhor. O Senhor, este, podia mudar e esse poder era reconhecido a grandes “donatários” do rei, bispos, cabidos eclesiásticos ou até mosteiros.

(Como vemos, a história muda pouco: coloque partido no lugar do senhor, e pronto, pode ter Pelourinho)

Habemus pois Pelourinho em Paços de Ferreira, sob mandato do director editorial Humberto Brito, disponível para acolher “a história dos leitores”.

Mas há mais pelourinhos

Ao mesmo tempo, na mesma semana, os senhores presidentes da Junta de Seroa e Meixomil (seguindo o exemplo da Junta de Raimonda) também editaram e distribuíram o respectivo pelourinho, com nome de Seroense e Meixomil, admitindo-se que a Junta de Paços lhes siga o caminho.

Mais pelourinho ou mais jornais, o que se sublinha são as coincidências que apenas provam a situação de facto que a democracia local pratica e a visão de futuro que tem.

– Todos garantem o acesso à “verdade oficial a que temos direito”;

– Todos transformam os presidentes em donos e directores dos jornais sem medo do prejuízo se não tiverem leitores;

– Todos acham que a informação local, produzida pelos órgãos de comunicação do concelho, é insuficiente ou insatisfatória,

– Todos assumem (com vocação democrática) o desprezo político pelos órgãos de comunicação concelhios quando estes relatam situações ou informações que lhes desagradam circunstancialmente.

– Também (quase) todos partilham a informação que hoje a “comunicação política” se faz nas redes sociais e, outros – muito poucos – vociferam que os jornais “vão acabar”.

Estas certezas de “peritos da comunicação” são muito apressadas e colidem com a realidade como se provará nos tempos mais próximos no nosso concelho, onde importará uma análise crítica e desapaixonada sobre o passado recente.

Mas são certezas que devem pôr em “estado de alerta” os órgãos de comunicação do nosso concelho: identificar as ameaças, reagir com serenidade, e respeitar o domínio onde nascemos: o jornalismo.

E sobretudo frieza para não percorrer os caminhos jornalísticos dos nossos políticos e muito menos entrarmos no campo da política que lhes está reservado. Se eles não nos respeitam, respeitemo-los nós. Por um motivo simples e linear – o nosso mandato é mais longo. Assistamos pois à implantação na nossa terra da “República Popular de Paços de Ferreira”.

Arnaldo Meireles