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Um concelho a duas velocidades

Sufragamos nas últimas eleições autárquicas o concelho urbano que queremos por larga maioria, mas não sabíamos da dualidade política que lhe estava subjacente como se vê nas últimas decisões da autarquia. Ao favorecer a parte sul a partir da cidade de Paços, prejudica-se a parte norte a partir de Freamunde.

Em política nada acontece por acaso, mas as consequências são drásticas para quem fica para trás e fabulosas para quem é bafejado pelo “progresso”. Um concelho urbano com duas cidades que favorece uma e prejudica outra, com o argumento de que todas as freguesias são “iguais” quando todos sabemos que são diferentes. E apenas a cidade de Freamunde assiste ao “apagamento urbano” por ausência de planeamento e vontade política de quem o dirige.

No dia 11 de Janeiro, na sua página pessoal do Facebook, o senhor presidente da câmara ofereceu aos seus seguidores um conjunto de fotos que mostra a sua vontade urbana – iniciou o processo de alargamento do parque urbano da cidade de Paços no último mandato, fê-lo chegar aos estádio do FC Paços de Ferreira, oferecendo ao clube o acabamento do parque anexo alcatroando a área.

Ganhou assim a cidade, sede do concelho, uma dimensão espectacular e muito interessante que merece o apoio de quem usufrui desse espaço. Agora arranca da ponte Nova até Meixomil mais um investimento extraordinário que alarga a cidade a sul.

Ao mesmo tempo, o parque urbano de Freamunde mantém-se nas suas dimensões originais, sendo que o acrescento até às piscinas tem previsto para ali ser instalado o futurível posto da GNR.

Tivesse a autarquia uma visão equilibrada, antes de iniciar a terceira fase de crescimento do parque urbano de Paços, poderia ter avaliado e executado o crescimento do parque de Freamunde em direcção a Ferreira, investindo nas margens do rio Ferreira, aliás assunto também prometido na última campanha.

Mas o entusiasmo de desenvolvimento para a parte sul amolece quando se trata da zona norte, o que não se percebe.

Todos conhecemos as vantagens dos investimentos públicos no crescimento da economia local, e por isso os proprietários dos terrenos bafejados pela opção política actual esfregam as mãos de contentes. Mas pergunta-se por que razão os proprietários de terrenos na zona norte não têm a mesma sorte.

O mesmo acontece com as consequências urbanas destes investimentos: aumentam a atracção das pessoas para o centro – as tais novas centralidades – moldando a economia e criando dinâmicas sociológicas promotoras de valorização comercial. É assim que criamos cidadãos de primeira e cidadãos de segunda, não porque o seu crescimento dependa da sua capacidade mas porque é condicionado pelas condições estruturais em cima das quais o desenvolvimento da pessoas, das famílias e das empresas acaba por acontecer.

A economia sempre definiu a sociedade, mas quando esta é condicionada pela decisão política, provoca a maior das injustiças por colocar freguesias e as suas populações foram do âmbito do investimento que favorece apenas alguns.

Estas duas velocidades de investimento ditadas pela opinião do “rotunda” levam os decisores a olhar frequentemente para o umbigo e evitando assim um desenvolvimento equilibrado do território.

Este centralismo, lamentavelmente, é experimentado pela oposição que sobre o assunto nada diz, como se esta leitura da realidade fosse justa, equilibrada e favorecesse o desenvolvimento harmonioso do concelho urbano.

PS e PSD discutem calorosamente nas assembleias municipais os assuntos de “lana caprina” como foi a disputa última de regulamentar a intervenção do público. Um entusiasmo e esgotamento emocional de argumentos que podia ser orientado para questões estruturais da vida comum. Mas não temos tido sorte. A coisa rola, como se todos estivéssemos condenados ao destino do discurso leve para que nada de substancial se discuta.

Este esgotamento dos dois partidos que dominam a política no concelho está a pedir uma reacção da sociedade civil que habituada a escolher as propostas dualistas que lhe são apresentadas precisa de ter alternativa na análise para que no futuro decida melhor, ou condicione o poder dos “donos” da coisa.