ESTAMOS
À ESPERA
casa das artes
2 anos 9 meses 3 semanas 3 dias

Os loucos atropelos que complicam a vida

Vivemos num mundo de contradições, de disparidades, de ameaças à integridade  individual e coletiva, à serenidade necessária ao desenvolvimento, à paz de espírito e à  paz no mundo.  

É um mundo louco de atropelos , atitudes de vingança e assunção de medidas  que geram o medo, o refúgio, a ausência de cada um dentro de si.  

Se por um lado, somos impressionados por a invenção dum aparelho capaz de  produzir oxigénio para a viagem espacial a Marte, também ouvimos, aterrados, a não  aceitação de doentes Covid, por parte de alguns hospitais indianos, por falta desse  elemento essencial à vida e por outro lado, a notícia terrífica do desaparecimento dos  mais de meia centena de indonésios, no fim do mar escuro e enganador.  

Morre-se, morre-se cada vez mais, por demora e falhas de vacinação, por  desvalorização e incumprimento das regras, por descuido, enfim, pela ignorância miséria  e a fome sejam elas de que etiologia forem, morais, materiais e mentais. A população  mundial está a diminuir, no Brasil, por exemplo, o saldo fisiológico está a regredir e  persiste a teimosia dos governantes perante a pandemia do nosso tempo.  

Enquanto isto, em muitos polos do nosso planeta, pequenas/ grandes guerrilhas  que matam, constrangem, traumatizam a existência dos menos preparados, dos  abandonados ou mais frágeis. Às vezes, cá no nosso âmago, até antecipamos e  tememos o advento duma terceira guerra mundial, dada a similitude de sinais das  vésperas das duas grandes guerras e as do mundo contemporâneo, em que as  malquerenças, entre alguns países, o acesso e invenção desigual de armas cada vez  mais mortíferas, os nacionalismos exacerbados que conduzem ao domínio dos ricos  sobre as economias que estiolam perante a exploração… 

Há quem tente adivinhar o futuro e mesmo se, como e quando acontecerá o tão  propalado fim do mundo. Mas este aproximar-se-á com o degelo das calotas e dos  glaciares que obedece ao despotismo da industrialização e da tecnologia e emanação  consequente de produtos que afetam, desflorestam, destroem habitats e a  biodiversidade e intoxicam a vida e o ser. Ou por quem se “esquecer” e ligar o botão das  armas arrasadoras.  

Apetece-me, terminar esta reflexão, com alusão a José Saramago que no poema  “Fala do Velho do Restelo ao astronauta” proclama “Aqui na Terra, a fome continua.”

Rosalina Oliveira, escritora de Freamunde