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À ESPERA
casa das artes
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O cheiro do poder, neste Portugal que amo

Naquele tempo senhora, eles foram vindo, um, outro e outro. Pareciam pacatos, gente simples, de bem, mas logo se lhes inchou dentro a semente do veneno, senhora. Aquilo que corrompe como nada, qualquer espírito humano mais fraco. É preciso ter uma espécie de alerta contra os impulsos do ego, sabe senhora? Traziam um conhecimento da terra, que depois alargaram com a faculdade, e mais tarde com o partido, claro. Depois passou a ser uma teia de entendimentos, de pressas, de rotinas, de cheiros, sabe senhora, o poder tem cheiro. E aninhavam-se como que pelo faro, sim os homens viram cães, conseguem ser fiéis a quem interessa e a quem não interessa. O poder tem aquela condição de virar ao contrário as entranhas de um homem.

Na primeira oportunidade em que se lhes atiram para o colo, números altos, ainda têm dificuldade em dizer não, ainda querem pensar um pouco, parecendo que um qualquer gene, de pai falecido ou escondido algures na terra, velho e sério de dar dó e íntegro, como o vigor de um cipreste, não consegue deter este esgar de olhos maiores que barriga. Depois, vem o amigo que dá aquele toque no ombro e chiça senhora, o poder é lixado, a ambição mais ainda e só o número de zeros que ele lhe mostrou da conta off-shore, fez-lhe a imagem dos filhos andar à volta, a zunir por cima dos olhos, na cabeça, por dentro da nuca, até turvarem os olhos e pensar: “Mas tu estás parvo, ou quê? Todos fazem…agora é assim, qual é o teu problema? Ou achas que o que trabalhas e te tiram da vida que deixaste de viver com os teus filhos é pago com o teu ordenado?” Ai senhora, onde chegámos…e depois parece que se torna hábito, rotina e se calhar procedimento normal e recomendável! Houve até quem me dissesse que ficar com dinheiro por ajudar num negócio, não era crime, não tinha mal…desculpe senhora. Tenho até vergonha.

Qualquer apresentador de TV, ganha por mês não sei quantas vezes mais do que quem nos governa…ou será que não governa? Também o dinheiro agora nem se vê. Tenho até dúvidas que exista na verdade. Sabe, comecei a trabalhar e a descontar aos 13 anos, e a minha família imigrou quase toda. Mas eu não tive fibra para deixar este país. Não sei, é uma coisa que eu cá tenho, sempre que vinham cá, eu perguntava à minha mulher, “Porque não vamos, mulher?” mas ela sabia o que eu sentia e dizia-me “Fazer o quê, homem?” e pronto, fomos ficando. Mas vejo senhora, vejo muito bem e sinto. Diga-me senhora minha, esses ladrões são a maioria ou uma minoria? Será que temos prisões para todos? … É que precisávamos de limpar isto. Desinfetar, senhora. Por amor a este país.

Cecília Cavalheiro, autora Sociedade Justa (Grupo privado no facebook)