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À ESPERA
casa das artes
2 anos 9 meses 3 semanas

O socialismo voluntário

Vamos dia 30 relegitimar o poder, na convicção de que nada muda, ou se mudar coisa pouca aconteça garantindo a estabilidade do centrão que a todos alimenta – uns mais que os outros, mas sobretudo os mesmos: aqueles que desenham o poder.

Somos assim todos voluntários na construção do cenário desenhado pelo senhor presidente da República e lá estaremos, votaremos e esperaremos pelo teatro da noite – quem compõe governo e com quem, na aritmética das conveniências.

À corte de Lisboa importa que nada mude, ciosa que está dos seus “direitos naturais”, ela que está vacinada contra a regionalização ou descentralização da decisão. Era o que havia de faltar!

Projectam-se mais quatro anos de “governação” – quem garante? – e anunciam-se novos horizontes, esses, os de agora, clarividentes a mostrar a todos os caminhos do sucesso, antecipados pelas promessas agora apresentadas em campanha.

Um autêntico “reset” do passado anunciando a nova aurora e o sol que todos tratará por igual, nos benefícios e nos custos – isso é que era bom!

Pelo menos 60% dos votos serão voluntariamente socialistas, agora que, momentaneamente, o PSD voltou a ser social-democrata. Daqui não vem prejuízo ao mundo até porque são eles que pagam! Respeitemo-los pois, não vá ninguém definir outro rumo que coloque em causa a tranquilidade da pobreza que desconfia tenazmente desses portugueses que vivem com mais de 1500 euros mensais, esses ricalhaços.

Voluntariamente socialistas pois, porque a segurança dos apoios sociais precisa de estar garantida – ainda há muitos pobres no nosso país- a protecção na saúde como meio de garantir o futuro de quem depende dela e não tem dinheiro para a pagar, a educação escolar como meio de promover o conhecimento garantido pela igualdade de oportunidades.

Protegido por Bruxelas que fiscaliza as contas, o Governo nascido na noite de 30, será controlado ao centro e admite-se que ceda aqui e ali na coisa pequena – a democracia a funcionar – mas terá que controlar o cacarejar dos garnisés, à direita e à esquerda.

Tudo indica que se verifique a entrada da onda liberal, uma argumentação que o PSD deixou cair, e se mantenha a bancada do PCP. Interessante para a democracia será acompanhar as intervenções destes dois bolcos por uma simples razão: eles vão limitar o âmbito da discussão no Parlamento.

Quanto aos garnisés, esses vão ilustrar os saraus da CMTV, mas “não contam para o totobola”. Isto é, existem para provocar incêndios, mas nunca estão disponíveis para os apagar. Precisam de ouvir o saudoso Raúl Solnado.