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Carta Aberta ao Senhor Abade

Carta Aberta ao Senhor Abade

Meu caro senhor Abade, esta carta é para lhe dizer que gosto muito de si; primeiro por ser quem é, segundo pelo que representa, e, terceiro, por tudo o que fez pela nossa terra – é um dos nossos – isso chega para o manter na memória, início do caminho da ressurreição.

Mas antes de lhe explicar a razão desta carta, permita-me que lhe conte um dos meus caminhos quando percorro o itinerário das dúvidas e me desloco a Famalicão para trocar ideias com a “tia” Maria.

Tem 85 anos, uns olhos azuis cheios de luz e uma intuição que ajuda a encontrar as palavras quando precisamos de falar.

Lá fui, pois queria saber o que é isso da “opinião pública” sabendo eu que se trata de um conceito criado pelos ingleses. Deles aprendemos quase todos os jogos por eles inventados. E a conversa correu assim:

.  Olá “tia” Maria, como vai a vida, tudo bem?

. Fazes cada pergunta, meu filho… vamos ali prá sombra, debaixo da figueira, está bem?

Sentámo-nos em duas grandes pedras (daquelas que o nosso Gusto gosta), ela rapou quatro figos maduros e fomos trincando.

. Agora pergunto eu: o que te tráz por cá?

. Oh “tia” Maria, essa coisa da opinião pública, o que é que acha?

. Oh rapaz, isso cheira-me a política, tu sabes que disso eu não gosto

. Política? Acho que não, mas quem sabe, o povo fala, está a ver, cada um diz uma coisa, nascem assim as notícias

. Oh diabo, as novidades, não é?

. Isso, as novidades…

. Sabes, as novidades são sempre perigosas, lembro-me que na catequese, oh meu Deus quando isso já foi, o padre ensinava-nos que Jesus era a novidade maior, e sabes o que lhe aconteceu? Pregado na cruz. Pimba.

. Pois, o perigo das novidades…!

. Pois foi, e quando as novidades chegam de Lisboa, isso é que é … Repara que depois delas o preço da décima sobre sempre!

. Pois é, mas deixe lá o estupor do dinheiro, as novidades aparecem porque as pessoas falam, é preciso conversar ou não é?

. Sim, as pessoas abrem a boca e falam

. É assim que aparece a “opinião pública”?

. Sei lá. Olha, no meu tempo, quando era nova, havia em Lisboa um senhor chamado Salazar, sabias o que ele dizia?

. Lembre-me lá

. O mafarrico dizia “quando duas ou três pessoas se juntavam, era comício” e pumba, polícia atrás delas; percebemos nessa altura o valor da boca fechada.

. Estou a ver

. Não te importas que volte a falar de Jesus?

. Não, até gosto de a ouvir a falar de religião

. De religião não sei nada; de política ainda menos; só sei que misturar religião e política é como meter estopa no fogo. Foge Maria…

. Ia falar de Jesus…

. Isso, esse disse uma vez: “onde dois ou três se reunirem, eu estarei no meio deles”

. Pois foi, também aprendi isso.

. Estás a ver, falar não deve fazer mal, pois não?

. Eu até acho que falar faz bem à alma, mas o que acha quando são mais de três?

. Oh meu filho, isso já é mais complicado…o povo a falar…ai de quem cai na boca do povo!

. Oh tia Maria, mas não vivemos sozinhos… temos de conviver, temos família, amigos, vizinhos, há que falar, senão para que serviu o 25 de Abril?

. Oh meu filho, põe-te a pau, e já te digo: a boca do forno do pão tapa-se com bosta de boi, mas a boca do povo nem com merda se cobre!

Os figos da “tia” Maria estavam deliciosos, como de costume, e com um abraço prometi voltar a Brufe este ano: para voltarmos a saborear a sombra da figueira.

 

Vossa Reverência, senhor Abade, chegou a Freamunde em 2005, por escolha do Bispo do Porto, num tempo difícil para todos nós. A crise económica que assolou o país, com indícios evidentes já em 2000, agravada em 2008 com a crise dos bancos que nos raparam o dinheiro do bolso, seguida da bancarrota do Sócrates em 2011.

Nestas circunstâncias, de céu muito negro e justificados temores, enfrentou e liderou a maior conquista da nossa terra e deu rosto à maior aspiração de gerações ao construir a igreja do Divino Salvador. E que linda ela é, oferecendo-nos a imagem de que precisávamos de uma cidade moderna, com uma nova centralidade – viu o grandioso concerto das bandas no domingo das Sebastianas?  E que lindo foi ver, na avenida, centenas de pessoas num ambiente de classe a usufruir do prazer (aqui não é pecado) de uma noite histórica!

Como temos de estar agradecidos. A nossa memória presta-lhe homenagem, pela coragem e por ter percorrido o caminho da aventura que era preciso galgar no mar tenebroso do medo (para quem o tem). A obra está aí, como testemunho que é o que interessa para marcar a história da nossa terra e da nossa gente.

Em 2013, a onda da política – a “tia” Maria alerta que se não deve misturar política com religião … – corajosos anónimos tentaram encravá-lo na narrativa da divisão, como se a democracia fosse condenável pela livre escolha do povo.

Nessa altura, vivia eu no Porto, vim à minha terra para o cumprimentar por entender que nestes momentos não há lugar ao silêncio. Encontrei-o, estava o senhor na companhia do meu pároco de Ferreira padre Samuel Guedes, e dei-lhe um abraço que dispensou a fala. Nesse momento os meus braços acolheram o pároco de Freamunde. É dos meus. Isso chega. Ontem como hoje.

Caro Senhor Abade de Freamunde

Dias virão em que o Bispo do Porto lhe há de telefonar a dizer-lhe que precisa de si. Felizes daqueles que irão beneficiar da sua dedicação e determinação. Para onde quer que vá, saiba que todos nós lhe acrescentaremos, com o orgulho que só nós temos: “foi padre de Freamunde”!

Por Arnaldo Meireles