Nelson Lopes – vem a minha casa ver Freamunde

Sempre que nos encontramos ou falamos ao telemóvel surge sempre a mesma pergunta: – Quando é que vais a minha casa? Quando alguém nos convida a ir a sua casa está fazer uma partilha maior de todo o seu ser, a sua privacidade, uma demonstração de uma sincera e genuína amizade. E eu lá fui até Leigal, a casa onde reside Nélson Taipa Lopes e onde nasceu em 5 de Fevereiro de 1938, filho de José Lopes e Iria Gomes Taipa.
Dorme no quarto em que nasceu e onde também nasceram as suas três filhas, a Ilda, a Clara e a Carla, frutos do seu casamento com Maria Esmeraldina Correia de Moura. Foi com o Professor Pires de Lima que deu os primeiros passos para aprender a ler e a escrever na primeira classe da Escola Primária. Recorda desse período a participação nas comemorações do 19 de Março na Associação de Socorros Mútuos Freamundense, numa espécie de teatro em que juntamente com outros alunos subiu ao palco, tal como a esposa do seu professor, a D. Ludgera e a D. Cremilde.
Da segunda à quarta classe contou com os ensinamentos do Professor Francisco Valente, de quem recorda uma história ocorrida no dia em que foi o único a saber a resolução de um problema de matemática. Numa atitude que considera anti-pedagógica, o professor manda-o pegar na “Santa Luzia”, a palmatória, e dar dois “bolos” a cada menino. Ordena que dê os “bolos” com força, mas o Nélson Lopes desobedece e prefere escutar o pedido baixinho dos colegas de turma… dá devagar, dá devagar. Quando passa pelo seu colega de carteira e grande amigo Carlos Felgueiras segue em frente. Os outros colegas reivindicam e o professor pergunta-lhe: – Porque é que não deste os “bolos” ao menino Abílio Carlos Pinto Felgueiras? Por ele ser meu sobrinho? Por ele ser teu colega de carteira? Manda-o estender as mãos e dá-lhe dois “bolos”. Recorda com saudade os momentos de desporto passados na escola com o Professor Gil Aires, um homem de quem se tornou um grande amigo e admirador, com quem se correspondeu quando este foi para África. Diz que era um espectáculo de homem.
Concluiu a instrução primária em 1948 naquelas que sempre foram conhecidas como as Escolas Amarelas. Passado oito dias do fim da escola vai trabalhar com o seu pai e começa logo a tirar faturas na empresa familiar, um armazém de mercearia e torrefacção de café, cevada, amendoim, grão preto. Tira entretanto por correspondência no Instituto Nacional do Comércio, em Lisboa, um curso de Guarda Livros.
O seu pai faleceu em 1966 e o negócio familiar continuou até 1986. As grandes superfícies tomaram conta do mercado e as mercearias foram desaparecendo. O seu amigo Dr. Fernando Vasconcelos era muito amigo do Timóteo Vasconcelos, dono da Madrugada, na Póvoa de Varzim, que produzia conservas, carnes frescas e fumadas, e que lhe conta que pretendiam um vendedor comissionista para esta zona. Bendita a hora em que o disse. Acaba por vir também a trabalhar também com uma empresa de congelados, chegando a ser representante de cinco empresas.
Ainda hoje, já com mais de oito décadas de vida, ainda trabalha para a Labruge, mais até para visitar os amigos. – Nunca trafulhei ninguém na minha vida, pelo menos conscientemente e é um grande prazer e vaidade sentir como sou recebido pelas pessoas com quem trabalhei e trabalho. Eu confio plenamente, ninguém duvidará. Quem conhece o Nélson Lopes sabe que estar com ele é sempre um momento distinto, à sua imagem.
O seu casamento dá-se quando tem 23 anos, sendo a sua esposa mais velha nove meses. A primeira filha, a Ilda, que hoje é professora, nasce 10 meses após o casamento. Passados dois anos nasce a Clara, formada em Engenharia do Ambiente exerce como Chefe de Divisão no Ministério da Agricultura, por requisição ao Ministério do Ambiente.
Entre a segunda filha e mais nova houve um aborto, que era um rapaz, que era o que sempre desejaram mas não aconteceu. Quatro anos depois do nascimento da Clara nasceu a Carla, Investigadora do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto e que foi nomeada recentemente para o Comité Executivo da ASPHER – Associação de Escolas de Saúde Pública da Região Europeia.
É um enorme motivo de vaidade para o seu pai, assim como a sua carreira de cantora nos Frei Fado, e um grande sinal de amor à terra ter sido com dez anos uma das fundadoras do coro Deo Gratias, e apesar de ter uma vida muito ocupada, ainda consegue algum tempo para regressar às suas origens e perpetuar a paixão pelo canto e prazer de estar com as suas amigas de sempre. “Monetariamente sou um teso, mas sou um dos homens mais ricos do mundo, pois tenho três filhas maravilhosas”, confessa. Como dizem os brasileiros, “os netos são filhos com açúcar.
Não chegou como desejava a ser pai de um rapaz, mas teve um sentimento que não consegue explicar quando a sua filha llda lhe comunicou que ia ser avô do primeiro neto, dando um grito que até se ouviu no Porto, graceja com uma gargalhada bem sonora. O primeiro neto, João Pedro, também lhe dá o prazer de perpetuar a ligação da família às artes, sendo formado em imagem e som e músico e cantor da banda portuense Lemon Lovers.
Nélson Lopes tem uma vida dedicada ao teatro, tendo aos quinze anos subido ao palco pelo Grupo Cénico de Freamunde na opereta Rainha Cláudia, com a personagem Zé Nabiça, seguindo-se a personagem de carteiro noutra peça com a encenação de Fernando Santos – Edurisa Filho. Segue-se um curto interregno. Juntamente com Maximino Rego, insistiu tanto com Fernando Santos para o regresso do teatro a Freamunde que este acaba por escrever a opereta popular Gandarela e que virá a ser a  estreia e o nascimento em 1963 do GTF – Grupo Teatral Freamundense e logo com um estrondoso êxito desta opereta popular que de dez em dez anos é levada novamente à cena.
Considera o aparecimento de Fernando Santos em Freamunde como o maior acontecimento do século passado, não só pelo teatro, mas por toda a sua sabedoria. Sempre que fala nele apetece-lhe dar um grito e dizer-lhe: – Foste o maior do mundo. Apetece-me dizer isso.
São tantos os momentos importantes vividos no teatro, mas pessoalmente salienta o Prémio João Rosa, obtido em Évora em 1965 com a peça  “O Sapo e a Doninha” no Concurso de Arte Dramática das Colectividades de Cultura e Recreio e dos Grupos Dramáticos Independentes, numa organização do S.N.I. . Nesse mesmo ano, também a actriz do GTF – Grupo Teatral Freamundense, Maria do Carmo Correia, a “Mariazinha”, obteve o 1.º Prémio neste concurso.
 
Outros prémios se seguiram para os nossos actores, técnicos e encenadores. Sempre que ia a um casamento, a uma festa de amigos, bodas de ouro, festas de colectividades, uma homenagem, momentos especiais de pessoas de quem gostava, festas de  família, escrevia discursos em prosa que os lia para todos os presentes. Já são tantos os escritos que as suas filhas se juntaram para preparar a edição de um livro com a compilação desses discursos. Logo que a pandemia o permita será feita a sua edição numa cerimónia pública.
Nélson Lopes é um homem do associativismo, foi dirigente do Clube Recreativo Freamundense, da Assembleia Freamundense, dos Bombeiros Voluntários de Freamunde, Presidente durante quase quatro décadas da Associação de Socorros Mútuos Freamundense, fundador da Confraria do Capão de Freamunde, fundador dos Lions Clube de Paços de Ferreira, fundador e Presidente do Clube de Pesca e Caça de Freamunde, Presidente da Assembleia Geral da Associação do Norte de Pesca Desportiva, tendo também como pescador de pesca desportiva sido Campeão na 1.ª Categoria  da Associação de Pesca Desportiva do Norte. Chegou a ser convidado e a assistir ao Campeonato do Mundo de Pesca Desportiva em Londres.
Foi Segundo Secretário da Assembleia Municipal de Paços de Ferreira, pelo PSD e Primeiro Secretário na Junta de Freguesia de Freamunde, pelo PSD, num executivo liderado pelo Professor António Campos, do Movimento de Independentes – Por Freamunde.
Hoje não considera que faça parte de algum partido. Hoje o seu partido é Freamunde. Quando era membro da Assembleia de Freguesia de Freamunde disse que se houvesse alguma proposta que fosse boa para o desenvolvimento de Freamunde, é nesse partido que votaria. Tenho dito, assinalou. Hoje ainda mantém essa posição.
O coleccionismo é também uma das suas paixões, tem uma colecção de Numismática e também cerca 400 livros sobre o tema, uma colecção de Notafilia que conta com notas de 96 países, 1121 miniaturas de garrafas de bebidas, e uma colecção que adora por quem tem um sentimento especial, a sua colecção de centenas de canecas com caricaturas de rostos humanos.
Ao longo da sua vida foi também coleccionando amigos, entre os quais um que o tratava por irmão, o saudoso Dr. Fernando Vasconcelos. Alguém que tinha uma conduta e preocupação tão grande em prol do outro que por vezes acabava por se prejudicar a ele próprio e com quem foi fundador da Frente Democrática do concelho de Paços de Ferreira a seguir ao 25 de Abril, de Maio a Outubro, com pessoas que várias tendências políticas.
Destaca o enorme sentido humanista do Dr. Fernando Vasconcelos no atendimento aos seus pacientes. Se fossem pessoas com possibilidades financeiras pagavam a consulta, se fossem pobres, dizia-lhes: – Vai-te embora, vai-te embora… Se fossem muito pobres não pagavam a consulta e ainda lhes dizia: – Pega lá, leva a receita e diz na farmácia para porem na minha conta.
Nélson Lopes foi o maior amigo do ciclista Ribeiro da Silva, vencedor da Volta a Portugal em 1955 e 1957, tendo também participado no “Tour” de France. Todas as condições estavam reunidas para que José Manuel Ribeiro da Silva, dada a sua juventude, viesse a afirmar-se como um grande valor internacional.
Um estúpido acidente de motorizada, no dia 9 de Abril de 1958, roubou ao ciclismo português e ao Académico Futebol Clube um dos seus maiores vultos. Mesmo tendo nascido e vivesse em Lordelo, Paredes, vinha a Freamunde a casa de Nélson Lopes quase todos os dias, sendo sócio do Sport Clube de Freamunde.
Dos amigos ainda vivos, Nélson Lopes não quer destacar algum em particular, com receio que algum lhe possa escapar. E isso também não é necessário, quem é seu amigo já sentiu esse carinho e forma peculiar de o demonstrar de uma forma divertida e irónica. Quem nunca o ouviu dizer?: – Ficas a saber que estás considerado por mim uma das pessoas mais feias do mundo.
Diz isto um dos mais bonitos rostos da história da nossa terra, que me deixou emocionado quando mal terminou a atuação das Castanholas de Freamunde – Pedaços de Nós no programa Luar, da TV Galicia, em Dezembro de 2018, me telefonou a dizer que tinha chorado a assistir à nossa atuação e a agradecer por levarmos o nome de Freamunde tão longe. Quando ouvimos falar em Terra de Cultura, Trabalho e Paz, devemos sempre lembrar que Nélson Lopes é um dos que vai na frente com a bandeira.
Texto: Pedro Ribeiro

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