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O São Martinho de Freamunde

Diz-nos o calendário que no dia 11 celebramos o São Martinho. E a tradição explica-nos que este santo nasceu na Hungria por volta do ano 316. Foi um soldado romano que, depois de receber o batismo e renunciar à vida militar, fundou um mosteiro em Ligupé, na França onde seguiu a vida monástica. Mais tarde recebeu a ordem sacerdotal e foi eleito bispo. Faleceu 8 de novembro de 397.

A lenda mais conhecida indica que Martinho se encontrou com um mendigo durante uma tempestade de neve e, com a sua espada, cortou o seu manto ao meio para partilhar com o pedinte e resguardá-lo da chuva. Nessa mesma noite, o mendigo sonhou com Jesus vestido com a metade da sua capa e que, apontando para um grupo de anjos, lhe disse: “Foi São Martinho catecúmeno quem me agasalhou”.

Também agora em Frazão se celebra aí esta festa uma vez que a terra adoptou o seu nome como padroeiro. E foi dali que com 18 anos o melhor jogador de Frazão, à época, pegou na bicicleta atravessou o concelho e parou no Carvalhal, para ser jogador dos juniores do Sport Club de Freamunde.

Fazia este itinerário por convicção própria não ouvindo os pareceres da família que lhe apontavam outro caminho vestido de amarelo. O azul da camisola ficava-lhe bem e condizia com os seus olhos.

Foram 18 anos de dedicação plena ao nosso clube impondo-se como um dos melhores médios da história. Defendia como ninguém e distribuía o jogo com precisão. Quando necessário metia o pé à bola que ali ficava à sua mercê. De seguida, levantava a cabeça como só os heróis sabem fazer e definia o passe.

Exemplificava em cada jogada o cantar da claque de agora: “Para cima deles”. Foi sempre assim.

Depois de jogar, treinou nas camadas jovens do nosso clube onde formou gerações e também encontrou o caminho da mágoa quando percebeu que o seu lugar na formação era apetitoso a olhos que esperavam pela oportunidade. Saiu magoado mas não partilhou essa tristeza com ninguém.

Na semana passada encontramo-nos com Martinho no jogo Frazão-Freamunde, da II divisão da AFPorto e perguntamos-lhe quem queria que ganhasse. Afável e diplomaticamente manobrou a pergunta como fazia aos adversários e respondeu com cautela e precisão: “se me pergunta se sou de Frazão ou de Freamunde, respondo-lhe que sou de Santo Tirso”.

Ficamos a saber muita coisa da intimidade de Martinho – coisas que não se publicam porque ele não quer contar, para não se lhe ouvir da sua boca seja o que for que possa pôr em causa o bom nome da terra que ele ama muito.

A mágoa que ali existe, é atenuada sempre que vem ver os jogos do SCF. Ali é acolhido como um dos maiores, com o carinho dos mais novos e mais velhos, que o cumprimentam pela razão de sempre – um dos nossos melhores heróis construídos no Carvalhal. E sempre que o seu SCF joga em casa ele ali vem, vindo de fora, para celebrar, com os seus, a alegria de pertencer à família do clube. Um exemplo de freamundismo que se destaca num tempo em que tantos por tão pouco se desligam da história. É por isso o nosso São Martinho.

Martinho, à esquerda, no intervalo do Frazão-Freamunde que a nossa equipa venceu por 3-1.