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Qual é o valor do património imaterial das Sebastianas?

As Sebastianas, as antigas festas da Vila, ocupam um lugar importantíssimo para a identidade colectiva de Freamunde. É na comunhão de diferentes pessoas (profissões, personalidades, credos, etc.) que se organiza um evento verdadeiramente eclético que congrega tradições e modernidade. Compete a todos nós estarmos alerta para não perdemos o seu património imaterial que é insubstituível. Se desaparecer… haverá sempre alguma freguesia com diversão noturna ao ar livre para copiar a parte (fácil) que sobra.

 

As Sebastianas, as antigas festas da Vila, ocupam um lugar importantíssimo para a identidade colectiva de Freamunde. É na comunhão de diferentes pessoas (profissões, personalidades, credos, etc.) que se organiza um evento que congrega tradições de décadas associadas à normal evolução dos tempos e modernidade. Existem poucos eventos tão ecléticos como o nosso. 

O esforço é imenso. Com ajuda de muita gente, os festeiros de cada ano dedicam muito tempo das suas vidas (na maior parte das vezes sacrificando vida pessoal e profissional) para que tal seja possível. Só num esforço único de um ano é que é possível adquirir algo desta magnitude. Sem colocar em causa a independência anual de cada comissão de festas, que é a grande força motriz do evento, existe um conjunto de situações que necessitam de maior proteção que, por serem mais antigas e tradicionais, ficam em risco ou secundadas pelos DJ´s da moda. 

Nos eventos culturais de maior monta, como a Viagem Medieval de Santa Maria da Feira ou as Feiras Novas em Ponte de Lima, existe uma estrutura que garante uma continuidade do projeto reinventando-se na mesma todos os anos. 

A parte fulcral da festa está em torno daquilo que a caracteriza e a torna única: a parte religiosa, e em particular a Procissão em honra do mártir, as vacas de fogo, o concerto de bandas filarmónicas, o cortejo alegórico com carros realizados por grupos de Freamundenses, o fogo de artificio, etc. Este é um património imaterial valioso. Com algumas excepções, o que temos assistido é um continuar de “investimento” na parte de concertos pop/rock e DJ´s/discotecas ao ar livre. Que no contexto correcto nos enriquece, sem dúvida, mas que por si só, não deixa de ser banal e que não nos caracteriza de todo…  Pior, estende a festa por horas completamente incompreensíveis (nem as Queimas das Fitas onde só existe este tipo de diversão permitem tais horários), roubando tempo precioso aos festeiros para dinamizar a parte diurna das festas. Essa parte diurna podia levar à festa a mais pessoas, em particular as crianças e mais velhos. Pessoas essas que muito ajudam para que a festa se realize. 

Com o novo centro cívico de Freamunde seria também uma boa altura para repensar, pelo menos, o layout da festa. Deveria ser possível existir um plano de continuidade, nomeadamente nas áreas que não estão dependentes da escolha programática anual. A definição dos espaços da festa e respectivas condições de utilização (instalações eléctricas, água e saneamento, recolha resíduos, higiene, segurança, sinalética, etc.) deviam estar previamente estabelecidos, o que permitiria uma distribuição harmoniosa e organizada, à semelhança de outros eventos ou mesmo do que aconteceu na feira dos 300 anos (ainda que com as devidas adaptações e diferenças no evento). Este plano poderia ser pensado pela Associação das Sebastianas e comissão em exercício, e posteriormente apresentado e discutido com a sociedade civil e suas instituições (Câmara Municipal, Junta e Assembleia de Freguesia, Polícia Municipal, GNR, Bombeiros, etc). Desta forma, conseguiríamos num verdadeiro esforço colectivo, criar um plano sólido e institucionalmente validado que servisse os futuros festeiros e festas Sebastianas. 

Compete a todos nós estarmos alerta para não perdemos este património imaterial que é insubstituível. Se desaparecer… haverá sempre alguma freguesia com diversão noturna ao ar livre para copiar a parte (fácil) que sobra.

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Ricardo Taipa, Médico Neurologista, Professor Universitário

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