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Santana: a aposta arrojada do SC Freamunde

Santana – estrela futebolística de dimensão europeia ao serviço do Benfica – tornou-se uma figura de Freamunde. Em 1970 tornou-se treinador/jogador do nosso Freamunde e marcou uma geração de jogadores tendo merecido o respeito e o direito à boa memória dos freamundenses. Depois de “beber da água do agrelo” decidiu que esta seria a sua última pátria.
    Portugal

Freamunde

1971/1972/1973/1974
[1968/1969]
[1954/1955 a 1967/1968]
Depois do título distrital conquistado na época 69/70, sob o comando de Rola, a recém nomeada direcção do clube do “Carvalhal” sentiu que era tempo também de viragem no comando técnico, necessidade de incutir emoção ao projecto idealizado, tentando, completamente obcecada, cega, num golpe de audácia, a contratação para treinador/jogador de Joaquim Santana. Era uma forma de injectar doses de paixão e qualidade que muitos diziam faltar.
Não foi fácil esta aposta por alguma renitência inicial do técnico, apenas convencido no final de um jogo de carácter particular, Freamunde/Fafe, integrado na festa de homenagem a “Barbosa”, que os “azuis” venceram por 5-3, após fantástica exibição do seu quarteto maravilha de dianteiros: Couto, Abel, Venâncio e Ernesto.
Fafe, curiosamente, agremiação desportiva presidida pelo freamundense, Eng. Hercílio Valente, antigo guarda-redes da equipa “azul e branca”, e que também estava interessada nos préstimos de Santana.
Ciente de que o plantel lhe daria todas as garantias, Santana não olhou para trás e de imediato pôs o “preto no branco”.
O Freamunde – já possuía alguma “hegemonia” mas pouco dinheiro – acabava por abrir os cordões à bolsa e fazer um dos maiores investimentos da sua história.
O contrato, “das arábias”, implicava o dispêndio anual de 106.000$00 (um terço, aproximadamente, do orçamento global), assim distribuído:
Prémio de assinatura: 40.000$00
Remuneração mensal: 5.500$00
Uma loucura para os tempos que corriam! Anos atrás, em 1962, por exemplo, ao serviço do Benfica, as verbas envolvidas na renovação de contrato pouco diferiam: 50.000$00 de luvas e 4.000$00 de remuneração mensal mais os respectivos prémios. Só Coluna e Eusébio estavam noutra dimensão.
A notícia, contudo, ainda não tinha “saltado” para o exterior. Só os directores eram conhecedores.
Nas “tertúlias”, sobretudo nas imediações do Café Popular, propriedade do Américo “Caixa”, bem perto do “Cruzeiro”, ninguém acreditava! – Contrataram o Santana?… O ex-jogador do Benfica, bi-campeão europeu e internacional pela nossa Selecção?…Não, não pode ser!…

Mas foi. O encanto pelo “angolano” tornara-se irresistível e a ideia foi avante.

Santana surgiu como o novo rosto do futebol em Freamunde, Vila que “abraçou” e onde encontrou de novo a felicidade. Onde viveu com a mulher, Manuela, e criou os filhos, Paula e Joaquim.
Santana trouxe padrões muito próprios de organização e treinos de alguma intensidade física. Mas logo se resignou. A rapaziada era totalmente amadora, só podia treinar duas vezes por semana e alguns métodos foram irreversivelmente alterados. Mesmo assim, os primeiros passos foram dados definitivamente para a frente.
A própria “revolução” no futebol local começou no dia em que Santana proibiu, fosse quem fosse, de “invadir” o balneário em dia de jogo, como até aí era apanágio de certos “dirigentes”. De convicções fortes não dava ouvidos – ou dava? – aos treinadores de bancada. Intransigente, preservou e blindou o grupo contra os “índios” do costume. Mudavam-se as mentalidades.
Sem ambições desmedidas, o ambiente era contagiante. Nunca se vira nada igual. Alguns treinos pareciam jogos, tantos os “curiosos” em volta do pelado.
Santana pegava na batuta  e afinava a orquestra. Além de “maestro” também “executava” com carícia.
Quando o vi pôr o pé numa bola pela primeira vez fiquei boquiaberto. Fascinado.
Ainda me lembro de uma aposta que Santana combinou, antes de um treino, com os jogadores presentes, sobretudo com Miguel, guarda-redes: fazer dez remates com a bola no chão, em cima da linha de grande área, e conseguir acertar dez vezes na trave da baliza. Resultado: dez tentativas, dez bolas na trave.
Toda a gente ficou pasmada a interrogar-se como seria possível uma coisa daquelas. Pois!… Santana representava o jogador completo: à mestria da técnica aliava a elegância no jogar.
Mas, raios!, não ria, não chorava, pouco falava. Parecia tímido… Talvez homem de sangue gelado mas o coração bombeava futebol.
O campeonato da 3ª divisão Nacional estava à porta.
O capricho do sorteio determinou que visitássemos Viana do Castelo, cidade de rara beleza e acolhedora.
O plantel, desfalcado de Ernesto, mobilizado para o ultramar (baixa de vulto), dava garantias.
Os freamundenses acreditavam. Tanto assim que das 3.000 pessoas que se acomodavam em volta do terreno de jogo, 2.000 eram de Freamunde. O tempo estava solarengo, convidativo ao passeio. As camionetas – cerca de 50! – foram pejadas de adeptos. Pela estrada viam-se dezenas de automóveis, todos eles sem espaço para quem quer que fosse, com bandeiras tremulando ao vento. A “princesa” vestiu-se de azul, mas de Freamunde.
Na nossa Vila só restavam velhos e crianças. No Quartel dos Bombeiros implorava-se: oxalá não toque a sirene para incêndio ou acidentes!
É que “voluntários”… nem vê-los! Estavam todos para Viana.

O Freamunde ganhou por 1-0. O “mister” Santana deu o exemplo, facturando o golo da justa vitória que levou ao rubro a imensa mole humana.

Dos 42 golos apontados pela equipa, 9 pertenceram a Santana.
E por cá continuou.
No final da época 71/72, Santana foi alvo de uma singela homenagem.
Convidado o Sport Lisboa e Benfica – logo confirmaram a presença dada a consideração de que era credor o seu antigo jogador – o “espectáculo estava garantido”. Nem mais.
Do livro “Sport Clube de Freamunde – Vida e Glória”, alguns fragmentos da “festa”: «… Os lisboetas fizeram-se representar com um “misto” em virtude dos seus principais atletas se encontrarem no Brasil, ao serviço da selecção nacional, no Mundialito.
O “aparato” começou bem cedo. Afinal, sempre era o “grande” Benfica que nos dava o prazer da sua visita.
A delegação encarnada foi recebida à saída de Seroa por um cortejo de carros e outros veículos motorizados. Muitos foguetes troavam no ar. Seguiu-se paragem em Frazão onde o simpatizante encarnado, Manuel Coelho de Sousa, distribuiu uma rosca de pão-de-ló a cada um dos elementos da comitiva.
O “Carvalhal” rebentava pelas costuras.
O encontro aproximava-se do seu início e cá fora ainda se vendiam bilhetes. Simões, de braço ao peito, com blocos de ingresso na mão, “ajudava” o seu ex-companheiro de tantas tardes e noites de glória.
Com as equipas perfiladas, ouviu-se o “elogio” a Santana nas vozes do conceituado jornalista Álvaro Braga e do freamundense Fernando Santos, oradores incomparáveis, possuidores de uma fluência e de uma riqueza de imagem admiráveis.
O homenageado foi alvo de muitas manifestações de carinho e apreço. Da directoria benfiquista foi-lhe ofertada uma águia d’ouro.
Depois seguiu-se o tão ansiado jogo de futebol entre o Freamunde e o Benfica, arbitrado por Américo Borges.
Venceu o Benfica por 1-0, com golo de Carlos Pereira, mas o Freamunde deu réplica condigna valorizando o espectáculo.
… Mais tarde, já o capitão da equipa encarnada, Malta da Silva, havia recebido das mãos do Vice Presidente da Câmara, a taça “António da Silva Alves”, num ambiente acalorado, foi servido, na “Quinta do Monte”, um primoroso copo d’água. Marcaram presença os atletas das duas formações e respectivos dirigentes, várias personalidades da edilidade local e concelhia e outras individualidades.
Foi uma festa bonita, sem dúvida».
Em 73/74, Santana, pela quarta vez consecutiva, aceita de novo o cargo de timoneiro da “nau” azul, mas com contrato melhorado. A remuneração mensal passou a ser de 10.000$00.
No entanto, esteve “tremido” o acordo, pois, Santana, apenas desejava enveredar pela carreira de treinador. Tal desiderato não ia de encontro às pretensões dos dirigentes do Freamunde que o desejavam igualmente como jogador.
Mas…, em 74/75, já a “revolução” havia chegado, também, ao futebol, Santana foi “pregar para outra freguesia”, aliciado por um contrato extremamente vantajoso do ponto de vista financeiro. Pendurou definitivamente as chuteiras, passando a exercer apenas e só o cargo de timoneiro principal.
Sucedeu-lhe, no mandato de Agostinho Ferreira Leal, o vila-realense, Amaral, com as mesmas funções do seu antecessor: treinador/jogador.
Apenas por uma temporada. Santana regressava para a época 75/76. Estava de novo nas “suas quintas”. Afinal, sempre era aqui que vivia… Gostava disto… Gostava do Clube… Nós gostávamos dele… E agradecemos-lhe por ter tomado essa decisão. 
Mas o vil metal, sempre o vil metal!, voltou a falar mais alto e Santana deixou-se seduzir pelos encantos da “sereia” e rumou ao “mar” de Vila do Conde, a troco de muito, muito mais dinheiro. Para ser campeão pelo Rio Ave.
E por “fora” andou durante vários anos. Liderou, além dos vilacondenses, Régua, Leça, Paredes…
Até que, já na segunda volta do campeonato de 84/85, sob presidência de Francisco Ribeiro de Carvalho (Zeca, vítima dos fantasmas do passado, que tinham regressado e em força, viu-se despedido do comando técnico), Santana voltou a “pegar” na equipa, levando-a à discussão do título da 2ª Divisão Nacional, perdido no derradeiro encontro, em Paredes, jogo envolvido em enorme polémica.
Tudo parecia um mar de rosas, mas não. Nova época, problemas antigos. Com Armando Teles Menezes de novo ao leme da directoria, acabou o estado de graça de Santana. As “coisas” não estavam a correr bem, ondas de conflito que não amainavam, e, a poucas jornadas do fim, rolaram cabeças. No comando técnico houve troca de Santanas: Joaquim deu lugar a Abílio, ex-treinador de Moreirense e Joane.
Um “emissário” trouxe-lhe a notícia do despedimento. Assim mesmo! Consideravam-no ultrapassado, improdutivo… A dignidade obrigou-o a prescindir dos “direitos” e desligou-se do clube. Foi, surpreendentemente, para o “rival” Lixa. Para ser campeão de série. É verdade! Afinal, onde estava a… improdutividade?
Curiosamente, o Freamunde, com o empate a uma bola alcançado no “Carvalhal”, ante o Ermesinde, no derradeiro jogo, posicionou-se logo a seguir, também ascendendo a divisão superior.
Em suma: Joaquim Santana subiu duas equipas na mesma temporada. É obra!
Santana voltou ao Régua para, aí, terminar a carreira de treinador.
Santana, sempre de olho nos novos talentos que iam surgindo, lutou, também como orientador (até à sua primeira saída do clube azul e branco),  pela propaganda e melhoria técnica do futebol juvenil do Sport Clube de Freamunde, criando uma “escola” de fazer inveja.
Santana, “raposa” astuta, remodelou a vinha e os “cachos” amadureceram rapidamente. Lançou precocemente às “feras”, sem pestanejar, jovens com dezasseis e dezassete anos. Andrade, Sacramento, Jorge Regadas, Laurindo…, foram alguns a quem, tal como o pedreiro, limou-lhes arestas mas não conseguiu, a este ou àquele, limpar-lhes a cabeça.
Da sua vida privada, das suas aventuras extra-futebol poucos tiveram acesso. Talvez só Humberto e Ernesto. Santana gostava de privar com Humberto e de conversar com Ernesto sobre temas nada ingénuos, ainda antes do 25 de Abril de 1974.
Santana, aos  53 anos de idade, foi derrotado no jogo da vida. Uma luta desigual, durante três meses, à qual não pôde resistir.
Santana, já era um dos “nossos”. Tinha assentada arraiais nesta terra em 1970, e por cá ficou a morar durante dezoito anos.
A notícia, a frio, da sua morte, cruel mas nem por isso inesperada – sabíamos que estava gravemente adoentado -, deixou-nos, mesmo assim, chocados, sem palavras.
Os freamundenses despediram-se do amigo em silêncio. Em silêncio que falava por si e comovia.
O corpo, acompanhado por grande multidão a pé, até à saída da Vila, foi a sepultar no cemitério do S. L. e Benfica, em Lisboa. 
Santana saiu do nosso convívio, mas não da nossa lembrança, nem da recordação da sociedade freamundense que o saberá venerar. Sempre.     
Texto editado sob autorização de JOAQUIM PINTO – BLOG “FREAMUNDE: FACTOS E FIGURAS
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