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casa das artes
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40 anos do Clube de karaté de Freamunde (CKF) e de muito mais do que isso …

A respeito dos 40 anos do CKF, comemorados no passado sábado, dia 12 de junho, e onde os antigos alunos foram convidados para um treino conjunto e uma tarde de convívio, enquanto recordava esse passado longínquo, durante o espaço de convívio e com a visualização de fotos desse mesmo pretérito, onde nos fomos confrontando com a dura realidade de alguns já terem desaparecido, ia pensando na importância singular deste desporto.

Como dizia o falecido pai de um amigo meu, “qualquer desporto é belo, mas uns são mais formativos do que outros”. Desde logo, não entrando no debate do que representa o karaté, se uma arte marcial, como gosta o Sensei Toni Regadas de apelidar, ou de um desporto de combate, ou, mesmo, uma mistura de ambos, prefiro, sem qualquer desacerto, assumir esta atividade como uma escola de ensino e desenvolvimento de competências de vida.

Enquanto olhava para as fotos antigas de muitos dos atletas, percebia que uma boa parte deles são hoje pessoas com responsabilidades políticas, sociais e empresariais concelhias relevantes, e tal não será por acaso. Não o será porque poucos desportos preparam tanto os seus praticantes para a vida como o Karaté tal como outras artes marciais envoltas em ética, onde a primeiro princípio desta é, desde logo, a “não violência”. 

O Karaté, em particular, tem o potencial de trabalhar competências sociais como seja, desde logo, o respeito “sagrado” pela pontualidade, pelo compromisso com os restantes colegas e pelo próprio contexto de treino, o “dojo”, bem como o respeito pelas hierarquias e pelas lideranças. Uma vez praticante desta arte marcial, toda a vida praticante, uma vez mestre, toda a vida se é visto e pensado pelos seus discentes com especial respeito e afeição. Assim é, nesta arte que promove a sublimação do “nós”, do grupo, em detrimento do “eu”. 

Ao mesmo tempo que trabalha os reflexos e a reação pronta, diria eu, como poucos desportos, desenvolve o controlo da impulsividade, o autocontrolo e capacidade para reagir de forma racional em situações de stress, enquanto forma de estar na vida. Um sujeito violento, impulsivo e que não mitigue essa forma de estar, não tem lugar numa escola de karaté que se diga orientadora de princípios éticos e deontológicos.

Assisti, a alguns atletas, apesar de serem excelentes, serem expulsos da escola, exatamente por reincidirem em práticas agressivas para com os seus pares. Treinar o auto controlo é desenvolver a capacidade para exercer controlo sobre a realidade que nos rodeia e simultaneamente, construir uma identidade positiva, aumentando a autoestima, desenvolvendo-se auto-confiança, fazendo com que os alunos acreditem nas suas capacidades e as desenvolvam, o que entronca com a ideia de promoção do mérito perante a igualdade de oportunidades, ou seja, a possibilidade de todos trabalharem em igualdade de circunstâncias para poderem alcançar o próximo cinturão. Isto é, nesta arte desportiva, cria-se uma espécie de microcosmos, um laboratório de aprendizagem para a vida.

Destas e de outras competências se faz esta arte, este desporto de combate, ou o que seja, e desta escola, CFK de Freamunde que fiquei a saber, só muito recentemente, em muito se deve a sua criação, também, ao Sr. Alexandre Saia, para além de, naturalmente, ao seu fundador AntónioTaipa Regadas – se fizeram muitas pessoas e boas pessoas. Por este motivo chamar à comunidade esta celebração é imperativo, assim como é fundamental que esta e outras atividades continuem a ser apoiadas pelas entidades públicas, até para se poderem democratizar cada vez mais, chegando a todas as classes sociais e ao maior número de crianças e jovens.

Parabéns ao CKF, parabéns ao Sensei António Regadas.

Marcos Taipa Ribeiro