2020 – a teoria do copo meio cheio

Está a ser difícil começar a escrever. Talvez porque este ano de 2020 teve tantas particularidades e mudanças, que é difícil começar a descrever o quão diferente foi o ano que passou.

Leio muitas vezes nas redes sociais que 2020 foi um ano atípico, difícil, horrível. Em algumas partes, concordo. Afastou-nos do contacto físico das pessoas que mais amamos, impediu-nos de socializar como até então estávamos habituados.

Porém, eu sou uma otimista inveterada, gosto sempre de ver o “copo meio cheio”. 2020 permitiu-nos vivenciar também muitas coisas boas, às quais, muitas vezes, não tínhamos tempo. Tempo para a família, tempo para cuidar de nós, olhar para dentro. Ao mesmo tempo que nos afastou de quem mais amamos, permitiu-nos ver quão falta nos fazem essas pessoas. E isso é bom! Dar valor, apreciar. Mas também nos permitiu ver quem não interessa manter nas nossas vidas. Relacionamentos tóxicos que, por força da correria do dia-a-dia, não tínhamos tempo, nem força emocional para as afastar de vez das nossas vidas.

Com a pandemia, habituamo-nos a usar máscaras na rua. Mas, desta vez, no sentido literal. Contudo, 2020 permitiu que muitas máscaras caíssem de forma irremediável. A nível pessoal, local e mundial. Não podemos negar esta realidade.

O ano 2020 permitiu separar o trigo do joio, as flores das ervas daninhas. Este annushorribilis não foi mais do que o preparar da terra para plantar. E para plantar temos de limpar o que não faz nascer.

Habituada ao contacto diário com pessoas, por força da profissão, vi-me forçada a mudar a minha forma de comunicação com as pessoas. Foi aqui que senti urgência em fazer parte da mudança de paradigma que 2020 impunha. Mas, de que forma? Não sou profissional de saúde. Apesar de trabalhar numa instituição pública, as minhas funções não me colocavam na linha da frente para fazer face à Pandemia. Como poderia eu, simples cidadã, dar o meu ínfimo contributo?

Foi aí que surgiu a ideia de criar um grupo na rede social Facebook. Tendo em conta as minhas funções na minha área de trabalho, criei um grupo de apoio às questões burocráticas e legais que a COVID-19 impunha a cada dia. Quase de hora em hora havia mudanças de legislação a todos os níveis, e eu pensei: “Porque não colocar a linguagem legal e burocrática em linguagem acessível e entendível a todos?”.

Assim, a 18 de Março de 2020, (dia em que foi decretado o primeiro Estado de Emergência) nasceu  o grupo do Facebook “COVID em Burocracias”. Este grupo foi criado no sentido de promover a entreajuda de saberes. Cada membro do grupo eventualmente teria uma habilidade, um conhecimento, uma competência. A ideia era oferecer as nossas competências a quem delas necessitaria, promovendo uma espécie de economia-circular.

Os tempos eram (e são) de incerteza a todos os níveis (social, economia, emocional, espiritual), pelo que somos todos precisos, somos todos importantes, todos podemos fazer a diferença.

Sem que o previsse, o grupo cresceu de forma exponencial! Algo que foi criado com alguma leveza, não me passou pela cabeça que chegasse aos 1400 membros que tem atualmente. Pessoas de todas as áreas se quiseram associar para dar o seu contributo a quem dele pudesse precisar.

Neste grupo, mais do que as questões burocráticas que se impunham a cada momento, o que mais impacto criou, a meu ver, foi o espírito de entreajuda. Num tempo tão difícil, todos se predispuseram a ajudar sem contrapartidas de qualquer espécie. E isso, não tem preço.

A sensação de que a dificuldade do meu vizinho pode ser a minha, levou o grupo para um patamar muito mais elevado do que a minha humilde ideia inicial o previa.

Neste grupo criaram-se amizades verdadeiras, apesar de não existir o contacto físico e, na maioria das vezes, as pessoas nem sequer se conhecerem. Aderiram pessoas de todas as partes de Portugal!

Por isso digo que, para mim, o copo está meio cheio.

Descobri, em 2020, que somos muito mais do que perceção que temos de nós próprios. E, a nível pessoal, foi um ano incrivelmente transformador.

Obrigada a todas e todos que fazem parte do grupo!

Desejo a todas e todos que colhamos o que semeamos em 2020!

Feliz 2021!

Gabriela Torres, Técnica Superior no Município de Paços de Ferreira

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