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A Europa do Atlântico aos Urais

Na primeira viagem de João Paulo II ao estrangeiro, o Papa defendeu claramente a unidade da Europa entre o Atlântico e os Montes Urais, explicando ser essa uma tarefa de unidade dirigida a todos. No texto que a seguir editamos de João Pedro Simões Dias encontramos uma explicação do enquadramento dado pelo papa eslavo, ele que oferecia à Igreja e à Humanidade a sua experiência de operário, padre e bispo em terras polacas.

JOÃO PAULO II E A UNIDADE EUROPEIA

Por João Pedro Simões Dias

A Igreja Católica viveu, neste último fim de semana, um momento simbólico e verda-deiramente histórico: dois Papas (o amado Papa Francisco e o Papa emérito Bento XVI) canonizaram dois antecessores (o Papa mineiro João Paulo II e o bom Papa João XXIII).

Nunca, até hoje, a cristandade havia presenciado um momento assim. Um momento histórico, no sentido verdadeiro e literal da palavra. João Paulo II, para os fiéis crentes, ascende, assim, aos altares com a dignidade de Santo, sobretudo pela sua vida, pelo seu exemplo, pela sua práxis, reforçado tudo isto com os milagres que lhe foram atribuídos.

Foi um Papa do nosso tempo – e no nosso tempo foi um notável projetista da paz. De facto, quando em 16 de Outubro de 1978 o mundo cristão se apercebeu que saía fumo branco da Capela Sistina, anunciando, urbi et orbi, a eleição de um novo Papa – de um Papa eslavo e, sobretudo, de um Papa polaco – para sucessor de Pedro, ninguém sonhou estar a presenciar o primeiro passo no sentido de ser ultrapassado o condicionalismo bipolar e a artificial divisão da Europa em dois blocos emergente do mundo da guerra-fria no pós-segunda guerra mundial.

O certo é que a imagem serena e tutelar, providencialmente inspiradora, do novo Pontífice e a sua permanente doutrinação em prol da construção da paz na Europa e no Mundo viriam a assumir-se como verdadeiramente determinantes em todos os acontecimentos que se sucederam na Europa Central e de Leste no último ano da década de 2 oitenta e nos primeiros anos da década de noventa.

A Cristandade passava a dispor de um Pastor que, pela sua vida, era ele próprio exemplo concreto de luta contra a opressão e a submissão. Contra o totalitarismo e a tirania. Mesmo assim, quando a 17 de Agosto de 1980 os operários polacos em greve nos estaleiros de Gdansk colocavam lado-a-lado, em lugar de destaque, presidindo às suas manifestações e às cerimónias religiosas que celebravam e presos às grades dos portões desses mesmos estaleiros, a imagem da Virgem Negra de Czestochowa, a bandeira do “Solidarnosc” e a fotografia de João Paulo II, poucos ou nenhuns se aperceberam que era o Muro de Berlim que abanava e que era a sua primeira pedra que era derrubada. E, no entanto, era o mundo socialista e a maioria dos seus fundamentos que estavam a ser postos em causa – no coração da Europa. E nos seus mais profundos alicerces.

Impotentes, surpreendidos, atónitos, o Estado que oprimia, o Partido que liderava e a Nomenklatura que governava viam operários em luta substituírem a entoação d’A Internacional pelo cântico do «Christus vincit…». Iniciava-se um processo lento e moroso. Mas inelutável – porque irreversível. Um processo que teve os seus heróis. Encarregados de honrar a memória dos seus mártires – à cabeça dos quais aparecerá a figura do jovem padre Jerzy Popieliuzko, sacerdote católico próximo do “Solidarnosc”, raptado a 19 de Outubro de 1984 tendo o seu cadáver sido encontrado a 30 de Outubro com marcas e sinais de tortura abominável.

A Europa, pela primeira vez desde a segunda guerra mundial, presenciava uma verdadeira revolução operária. Com a particularidade de retirar a sua enorme força dos sermões pontificais – e da própria comunhão matinal. E tão profunda nos seus anseios e tão forte nas suas ambições que não se limitaria ao território polaco. Lenta e gradualmente era a Palavra que era espalhada e divulgada; era a Mensagem que era lida e transmitida – e que poder algum, sobretudo porque errático, pôde travar – em Berlim, em Praga, em Sófia, em Budapeste, em Bucareste, em Vilnius, em Tallin, em Riga, em Moscovo…

Um a um, em escassos meses, os regimes políticos do velho Leste Europeu cederam de forma completa e capitularam de forma total ante a ânsia de liberdade de povos mudos desejosos de fazerem ouvir a sua voz e de fazerem escutar os seus anseios.

Isso mesmo o Papa-mineiro assumiu logo no início do seu pontificado. Escassos dias após assumir a cadeira de Pedro, quando visitava Assis, a cidade de S. Francisco, um dos Santos patronos de Itália, alguém suplicava ao pontífice que não esquecesse a Igreja do Silêncio. A resposta pronta do Bispo de Roma – “já não é a Igreja do Silêncio porque fala através da minha voz” – mais do que tranquilizar quem o interpelava volveu-se numa constante referência do seu pontificado.

Não existe melhor demonstração da atitude do magistério da Igreja católica sob o pontificado de João Paulo II do que o seu reconhecimento simbólico, a 31 de Dezembro de 1980, de S. Cirilo e S. Método, ao mesmo tempo que S. Bento, como santos patronos da Europa.

Para João Paulo II não podia existir casa europeia sem as nações e culturas da Europa central e oriental. A sua perspectiva paneuropeia, a sua Europa «do Atlântico aos Urais», devia ser encarada como uma garantia contra todas as tentativas de construir uma Europa ocidental que excluísse as nações eslavas.

Por isso João Paulo II – proclamando o Verbo em Puebla, exclamando em Roma que «Foi Deus que venceu a Leste!», exortando em Santiago os Homens a serem Homens e os Jovens a serem Jovens, advogando a Casa Comum Europeia em Estrasburgo, enunciando a mensagem da Paz em Assis, incitando ao respeito pelas Nações em Nova Iorque ou condenando o capitalismo selvagem com a mesma veemência com que censurava o marxismo em plena Praça da Revolução de Havana e ante um Fidel Castro perplexo – seguramente que integra o rol dos projetistas da paz.

Das vozes e da palavra do nosso tempo, foi o protótipo e o modelo. Sem complexos e sem medos;  apontou o dedo acusador para os erros passados da própria Igreja – as Cruzadas, o tráfico de escravos, o caso Galileu, os agravos infligidos aos não católicos, os ódios do passado,a divisão entre cristãos, os erros perante os Hebreus, os conluios com a Máfia, a marginalização da mulher; alertou os europeus, sobretudo dos Estados da antiga Europa soviética, no decurso da visita de despedida à sua Polónia amada, para os perigos do capitalismo desenfreado e da escravidão do mercado – tão desrespeitadores da dignidade humana como a tirania de todos os poderes erráticos; mas partilhou igualmente, em sinal de esperança, o desejo de que ninguém se subtraia à tarefa de construir uma Europa fiel à sua nobre e fecunda tradição civil e espiritual.

Reconhecendo, decerto, as inúmeras vezes em que a Europa, no passado, teve de enfrentar períodos difíceis de transformação e de crise; mas reconhecendo, igualmente, que sempre os superou extraindo uma nova linfa das inesgotáveis reservas de energia vital do Evangelho.

Atento às questões do seu tempo, o pontífice não se cansou de meditar e de refletir sobre a questão europeia e o papel reservado à Igreja na Europa alargada que já se perspetivava. E, na antecâmara da assinatura do tratado constitucional, foi a sua voz débil e já enferma que se escutou, instando os Estados membros, que se aprestavam a reunir em conferência intergovernamental, para que o mesmo tratado não esquecesse uma referência ao património cristão europeu, fundador da identidade europeia – «desejo uma vez mais dirigir-me aos redatores do futuro tratado constitucional europeu, para que seja inserida nele uma referência ao património religioso, especialmente cristão, da Europa». Uma vez mais, a voz limitou-se a ser ouvida mas a não ser escutada. E o conselho ignorado.

No seu tempo, que foi o do fim do milénio passado e o do advento de um novo milénio, a voz de João Paulo II contou-se entre as que honraram e engrandeceram a galeria dos notáveis projetistas da paz, advogados da causa da unidade europeia. Hoje, foi-lhe conferido lugar de destaque nos altares católicos do mundo. É lá o seu lugar.

Texto em Academia-eu