Ano 2020 – dispensável ou sensibilizador?

Estamos a chegar ao fim de um ano que, para todos nós, trouxe inquietação, provação e sobretudo um desafio de enorme superação. Começámo-lo como todos os outros, com uma enorme energia de esperança em concretizar os projetos e planos previamente traçados, esperando os maiores sucessos na sua concretização e desejando aos outros, os mesmos desígnios e vitórias. A crença era indestrutível!

Ouvíamos falar de um vírus que andava pela China (lá de muito longe) mas, era coisa de lá e se cá chegasse, seria uma dificuldade facilmente ultrapassável ou pelo seu cansaço da longa viagem, perdendo a sua vitalidade contagiosa ou pela capacidade da ciência e medicina avançada do mundo ocidental, a que nos convencemos!

Pois foi! Foi no início de Março, com os primeiros casos de infeção em Portugal, que começou a enorme tribulação e provação, fazendo-nos passar de um estado de fé e esperança para uma mudança radical de dúvida e medo, sendo-nos exigidos procedimentos aos quais não estávamos preparados, muito menos sensibilizados, pelo menos na prática. O ser humano passou de uma hora para a outra a ouvir, ‘afastem-se’, ‘não se cumprimentem’, ‘lavem as mãos’, ‘evitem tocar com as mãos na face’, ‘se tem tosse ou febre…’, mais tarde, ‘uso de máscara obrigatório’ e muito, muito mais!

A doença e morte, passaram a fazer parte das nossas vidas, pelas notícias que entravam pelas janelas digitais, que agora todos temos, com uma insistência e pormenor que só se explica, pela necessidade de ‘vender’. As atividades previstas levaram com o carimbo “CANCELADO” para os mais céticos e “ADIADO” para os mais esperançosos e incrédulos.

Enfim, foi um ano inimaginável de privação, provação e inquietação. Nem falemos da questão económica e da sustentabilidade porque este capítulo foi, sobremaneira, difícil em certos casos e setores, nomeadamente o da cultura em geral e arte em particular, sobretudo a que depende do público!

No entanto, esta enorme adversidade trouxe-nos outras graças ou  bênçãos, se assim lhe quisermos chamar: a poluição diminuiu consideravelmente, consequentemente respirou-se melhor e com mais qualidade; a sensibilização global de que estamos todos ligados e dependemos uns dos outros; a relativização do conceito riqueza; a valorização e importância da saúde e de todos aqueles que a cuidam e promovem; a relativização do tempo; a flexibilização e adaptação de formas, conteúdos e avaliação no ensino; a reafirmação de uma alternativa de relação através das novas tecnologias; reformação e revitalização do conceito família como célula primária de sobrevivência e convivência; a reflexão sobre a vida em geral e o seu propósito; a necessidade de aproximação ao divino como reforço da fé, para os mais crentes; entre muitas outras.

Em suma, podemos dizer que este ano foi pedagógico e colocou-nos na consciência aquilo que já sabemos há mais de 2000 anos de que o caminho passa por vivermos em comunhão numa dinâmica de reciprocidade, em comum unidade (comunidade), num sentimento de que fazemos parte de algo maior, fruto imensurável de amor, que nos protege e se revela de forma discreta, sublime, mas presente. Essa responsabilidade de partilha e serviço, revela-nos que as nossas ações podem fazer parte de um compromisso a favor da boa convivência, a que todos somos chamados.

O novo ano que nos espera, remete-nos para uma necessidade intrínseca que se resume na esperança de vivermos o propósito, que é sermos felizes em comunidade, num respeito escrupuloso pela unicidade que nos carateriza. Este desafio só é possível com desprendimento e desapego, vivendo numa senda permanente de aprendizagem, em que o ´eu´ se coloca ao serviço do ´nós´. Portanto, vivamos  com propósito  nesse propósito! Um Bom Ano a todos…

 

Carlos Silva, Músico/Professor

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