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Direita – o golpe continua em curso

Noam Chomsky – o pensador político contemporâneo mais relevante – considera que o trumpismo (linguagem da nova direita americana) continua a produzir os seus efeitos e que o golpe “continua em curso” apesar da vitória de Biden. No mundo ocidental, entretanto, as clássicas democracias começam a ser minadas por discursos primários anti-humanitários e pela recusa de uma mundovisão que coloque no núcleo ideológico o respeito pela dignidade humana e os direitos das pessoas.

Apoiadores de Trump vagam sob a rotunda do Capitólio dos EUA após violar o edifício do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, em Washington, DC (SAUL LOEB/AFP VIA GETTY IMAGES)

Donald Trump venceu as eleições de 2016 e, em seguida, dividiu o país como nenhum outro presidente entrante. E quando ele perdeu a eleição de 2020 para Joe Biden, ele não só se recusou a admitir a derrota, mas também tentou bloquear a certificação do voto eleitoral, instando os seus fanáticos apoiantes reunidos no Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021, a “parar o roubo ”da eleição. Meses antes, ele já havia colocado a sua base em alerta máximo, dizendo: “A única maneira de perdermos esta eleição é se a eleição for fraudulenta”.

Para o ex-presidente americano tudo é simples e linear:  “se a democracia não me dá os resultados eleitorais desejados, dane-se a democracia!”

Noam Chomsky reflete sobre o aniversário da insurreição de 6 de janeiro e oferece-nos as suas próprias percepções sobre o que pode estar por vir num país onde um segmento muito considerável da população ainda acredita nas mentiras de Trump.

“O Partido Republicano está realizando uma “insurreição em câmara lenta” e tornou-se “uma força antidemocrática”, algo que nunca aconteceu antes na política norte-americana” – diz Chomky para quem “os motivos de Trump são bastante claros. Não precisamos de um diploma em psiquiatria avançada para saber que um megalomaníaco sociopata deve sempre vencer; nada mais pode ser contemplado. Além disso, ele é um político astuto que entende que seus adoradores aceitarão facilmente a “Grande Mentira”.

Acontece que “há evidências substanciais de que esse desvio para a extrema direita pode ser motivado em parte pela lealdade cega a Trump. Esse parece ser o caso do problema mais crítico que os humanos já enfrentaram: a destruição ambiental. Durante os anos de Trump no cargo, o reconhecimento republicano da mudança climática como um “problema sério”, já chocantemente baixo, caiu 20%, mesmo com a natureza emitindo avisos dramáticos, em alto e bom som, de que estamos correndo para o desastre” – esclarece Chomsky.

Na Europa

Com o drama dos refugiados que procuram aos milhares por dia acolhimento na europa civilizada e fugindo muitos deles das consequências sociológicas e políticas plantadas nos seus países de origem pelos antigos colonos europeus, surgem forças políticas, caso da Áustria, Espanha, França, e agora Polónia e Portugal, a defender a repressão dos emigrantes negando um princípio de humanidade a quem olha para o mundo sem fronteiras.

Na base desta atitude reside um profundo desprezo humano por pessoas e comunidades frágeis mas legitimadas por natureza para viverem a sua vida e procurarem o rendimento estável que lhes permita viver, estruturar as suas famílias dentro de um horizonte de esperança.

Milhões de portugueses experimentaram este sofrimento nos anos 60 do século passado e embora saíssem do país a salto porque era ilegal emigrar foram acolhidos pelas economias francesa, alemã e suíça (sobretudo) e que progressivamente os integrou como cidadãos, agora com dupla nacionalidade.

Este foi e é o caminho da história, e só não o vê quem não quer ou opta por falar apenas dependendo dos interesses momentâneos da sua propaganda política.

O desgraçado exemplo de Trump nos Estados Unidos, com adeptos na Europa e agora em Portugal continua pois a provocar os seus efeitos e a clamar por redobrada atenção aos eleitores europeus que devem reforçar as defesas dos valores humanos, mas também das suas economias que, paradoxalmente, estão reféns de mão de obra não qualificada (outras vezes mesmo qualificada) para que a “sociedade burguesa, agora linear” seja alimentada no construído consumismo que a todos devora.

Por Arnaldo Meireles


Foto -Créditos da foto: Apoiadores de Trump vagam sob a rotunda do Capitólio dos EUA após violar o edifício do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, em Washington, DC (SAUL LOEB/AFP VIA GETTY IMAGES)