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casa das artes
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Os liberais, esses políticos fofinhos

 

“O primeiro que, ao cercar um terreno, teve a audácia de dizer isto é meu e encontrou gente bastante simples para acreditar nele foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras e assassinatos, quantas misérias e horrores teria poupado ao género humano aquele que, arrancando as estacas e cobrindo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: “Não escutem esse impostor! Estarão perdidos se esquecerem que os frutos são de todos e a terra é de ninguém”
— Jean-Jacques Rousseau, frase de abertura da segunda parte do Discurso, em Discurso dobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens.
Depois do abalo cívico de Abril de 1974, em que os portugueses, na sua maioria, passaram a conviver com a abertura da linguagem política e a conhecer possíveis e novas opções, seguiu-se um período tecnocrático – sobretudo nos governos de Cavaco Silva – onde prosperavam os chamados yuppies (!) como estrutura da apelidada “democracia de sucesso”.  Seguiram-se os anos da “esperança socialista”, também com os seus ícones.
Entretanto perdeu a democracia portuguesa a presença e partilha de conhecimento de líderes cruciais: Sá Carneiro, Mário Soares, Álvaro Cunhal, Salgado Zenha,  Jorge Sampaio, e António Guterres (este, por abandono). Citar estes nomes chega para avaliar a qualidade do debate político, pois cada um deles trazia à palavra política uma realidade pessoal que sustentava a natureza do seu argumento.
Crescemos assim na linguagem política com o exemplo destas pessoas e o contributo público que delas recebemos.
As alternativas reveladas nos últimos anos, contudo, manifestam-se com uma ligeireza e um facilitismo que não abona o estatuto de confiança a que se candidatam, sobretudo por impreparação (moral, porque sem testemunho; intelectual, porque sem reflexão; oportunista, porque ávida da comunicação do poder).
O aparecimento do Bloco de Esquerda (ainda se lembra? Foi em 24 de Março de 1999) congregou as famílias desavindas (ainda hoje) mas reconhecedoras do benefício da oportunidade de se lançarem à conquista do poder (conseguido em 2015 por boleia de António Costa do PS) foi acolhido – sobretudo pela comunicação social – como uma “lufada de ar fresco”, perante um PC “em crise” pretendendo o BE “renovar a esquerda”. Contudo a sedução primeira era o “ar novo de liberdade” que um “partido de esquerda” oferecia ao povo português “socialista radical na economia” e “liberal nos costumes”
Os “liberais da esquerda” tiveram assim acolhimento na arena política, entalaram-se entre o PS e  o PCP, e têm feito pela vida. Nos últimos 20 anos, eram os liberais da política apesar de se afirmarem representantes “únicos” de propostas fracturantes em que basearam a sua estratégia de comunicação, definindo uma caminho de “descronstrução” da “sociedade velha” e criação do “português moderno”: liberal e de esquerda, pois claro.
Vinte anos depois e porque o política não conhece vazio, surge agora à direita, uma versão de liberais, crentes absolutos na verdade da economia, e dedicados apóstolos na criação do “novo português” dispensado que está de seguir os caminhos “velhos e ultrapassados (por quem?) sobretudo em questões culturais, morais e até religiosas. Eles apresentam-se como arautos do “futuro próximo” alicerçados que estão na doutrina liberal que tudo permite, nada limita: nem mesmo a nossa paciência para os ter que aturar.
Aqui vai um exemplo desta “nova igreja liberal” descrito pelo bispo Cotrim em debate eleitoral. Segundo este arauto da “nova narrativa” conceitos como “direito à vida”e “visões religiosas” da experiência humana, são valores do “antigamente”, desinteressantes para quem quer liderar as “novas opções” do futuro.
Em matéria de “mundovisão” o novo bispo da direita liberal voa curto, desconhecendo a realidade das coisas e que matizam as convicções de quem vota. Contudo ao sublinhar as “surpresas” da economia, introduz na debate eleitoral realidades que é preciso perceber e que a economia – essa sabedoria anónima – teimosamente sublinha: a criação de riqueza é essencial.
Se conseguirem colocar o debate neste nível, já será um contributo. Embora curto, é importante. Mas também aqui precisam de olhar para Rousseau que no século XVIII lembrava : “O homem natural não é um “lobo” para seus companheiros. Mas ele não está inclinado a se juntar a eles numa relação duradoura e a formar uma sociedade com eles. Ele não sente o desejo. Seus desejos são satisfeitos pela natureza, e a sua inteligência, reduzida apenas às sensações, não pode sequer ter uma ideia do que seria tal associação”
Até porque “cada indivíduo tem pelo menos duas vontades, vontades de longo prazo e as imediatistas, em que uma se sobrepõe a outra, sendo essa a vontade geral. Com isso, todos devem se submeter a ela. Como a sociedade não tem objetivo estabelecido, é auto determinante, a vontade geral não seria constrangida por nada, tendo o “Todo” (sociedade) se submetendo a ela, recebendo cada um parte individual do “Todo”.
Este “egoísmo” partilhado pelos liberais, embora esquecido no seu discurso público, será certamente descoberto nos dias que se seguirão.
Agora que em Portugal o “discurso liberal” tem contraponto (embora divirja na análise económica), à esquerda (BE) e à direita (IL) ressaltará a necessidade que a sistema democrático tem em proteger duas das suas referências históricas. À direita o CDS – que sobreviverá se regressar à matriz democrata-cristã; e à esquerda a presença do PCP no parlamento – um activo da democracia portuguesa, construído no sofrimento de milhares de famílias que, no momento certo, sacrificaram as suas vidas em actos de resistência para que a democracia abrisse portas aos agora os nossos “liberais”.
Por Arnaldo Meireles
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Fotos: reacções no facebook sobre desenvolvimento da campanha eleitoral