Pandemia: o incómodo e o necessário

Quando penso em escrever uma reflexão sobre 2020, desisto quase instantaneamente porque todos os dias refleti e estou cansada. Ainda assim escrevo, na esperança de que as minhas reflexões inspirem as vossas.

Para mim, esta pandemia tem tanto de incómoda como de necessária. A entreajuda, cooperação e compaixão foram necessidades berrantes nesta altura, em que as diferenças e as limitações físicas ou económicas ficaram mais em destaque. Numa altura de crise, com consequências enormes ao nível da insegurança alimentar, é imperativo pensarmos melhor na gestão que fazemos dos nossos alimentos, de forma a minimizar o desperdício alimentar.

Os alimentos são um bem precioso e a sua produção pode implicar uma utilização intensiva dos recursos naturais. As estimativas atuais indicam que, globalmente, cerca de 1/3 dos alimentos produzidos para consumo humano é desperdiçado ou perdido, com um consequente impacte económico, social e ambiental. Enquanto uma grande parte da população sofre de excesso de peso e doenças crónicas por excesso de energia consumida, ainda há quem passe fome no mundo. O que significa que existe no mundo comida para alimentar toda a população, está é mal distribuída. E a isso junta-se o comportamento da sociedade perante os alimentos e consequentes desperdícios. A pandemia levou a que as pessoas comessem mais vezes em casa e, por isso, tivessem de pensar mais na sua alimentação (o que comprar, como preparar, como comer). E tal como eu dizia no início, isto é uma necessidade!

Ao longo destes meses foi evidente que indivíduos obesos e/ou com doenças crónicas são mais propensos a complicações derivadas da infeção e poderão ter uma recuperação mais lenta e dolorosa. Em simultâneo, cresceu diariamente o número de indivíduos com doenças oncológicas e cardiovasculares sendo que muitos deles não resistiram aos AVCs e outras complicações. Estes casos implicaram hospitalizações num ambiente quase caótico, acarretaram, como tem sido habitual, custos enormes para o Sistema Nacional de Saúde e uma sobrecarga dos serviços já pressionados pela COVID-19. Num ano como o de 2020 espero que as pessoas compreendam que a forma como cada um gere a sua saúde tem indiretamente interferência na saúde dos outros, sejam eles familiares ou profissionais de saúde.

Quanto à economia, é inquestionável que a sua estabilidade deve ser tida em conta quando se tomam medidas políticas. Porém, questiono-me se a economia tem de estar sempre em crescimento. Porque é que temos de alimentar um modelo de economia linear que insiste em crescer a cada ano? Será que agora valorizamos mais a estabilidade dos nossos negócios e carteiras, a família e a saúde? Será que estamos dispostos a arrecadar com maiores emissões de CO2, mais desigualdades sociais, mais desflorestação e um maior número de espécies extintas à custa de um aumento de caracteres nos extractos bancários? Estes são alguns dos efeitos da economia que praticamos e que terão, mais tarde ou mais cedo, um custo enorme nas nossas vidas.

Por último, o ambiente. Talvez seja o tópico mais controverso e ao mesmo tempo o de maior realce neste ano pandémico. Cientistas apontam a exploração de habitats selvagens como uma causa para o surgimento deste vírus e afirmam ainda que novas pandemias, com novos vírus, serão mais recorrentes devido à sobre-exploração do planeta e às alterações climáticas. Noticiários mostram como os animais invadiram harmoniosamente as cidades e os rios quando os seres humanos estavam confinados. Os níveis de poluição abrandaram e o dia anual de esgotamento de recursos naturais atrasou umas semanas…. Realmente a inatividade do homem é uma lufada de ar fresco para a Terra. No entanto, nós ainda cá estamos e vamos permanecer por algum tempo. Parece que temos de reaprender a viver e a respeitar a natureza. Somos a única espécie no mundo a caminhar para a sua própria extinção!

Entro em 2021 com a esperança de que a histórica pandemia da COVID-19 nos tenha vindo trazer algumas lições e que quando tudo isto passar, possamos viver os nossos loucos anos 20!

Margarida Taipa – Nutricionista estagiária

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