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À ESPERA
casa das artes
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Tolerância & Liberdade

Em 1945, Karl Popper, escreveu “The Open Society and Its Enemies” e explicou a quem o quer ler que a democracia, um bem frágil, para ter sucesso, precisa de avaliar, em cada circunstância, o seu grau de tolerância e a natureza da liberdade que promove.

No que diz respeito à tolerância chega mesmo a advertir que “a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada, mesmo para aqueles que são intolerantes, e se não estamos preparados para defender uma sociedade tolerante contra o ataque dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles.

Compete pois à imprensa livre e regulada, de uma sociedade civilizada, e em nome da tolerância, o direito de não tolerar os intolerantes. Devemos enfatizar que qualquer movimento que pregue a intolerância deva ser colocado fora da lei, e devemos considerar a incitação à intolerância e perseguição devido a ela, como acto criminal.

No que diz respeito à liberdade, o mesmo autor relembra o “velho” Platão que na Grécia Antiga, entendia “que o homem livre pode usar a sua liberdade absoluta para desafiar a lei e desafiar a própria liberdade.

Acontece que, pelo menos na civilização europeia, se entende que “qualquer espécie de liberdade será claramente impossível se não for assegurada pelo Estado e inversamente só um Estado controlado por cidadãos livres pode oferecer alguma segurança razoável”.

A ausência de tolerância e o uso da liberdade

Numa sociedade civil, democrática ou não, todo o cidadão honesto é credor do respeito, da liberdade e do direito à não-discriminação. Daí que a liberdade que se conquista – e nós vivemos nela desde Abril de 1974 – não seja exequível sem tolerância.

Num mundo “plano” porque global, sustentamos a comunicação, hoje, tendo em consideração as normas “gramaticais” (?) das redes sociais, onde o espaço da escrita é curto, o êxito (likes!) é proporcional à emoção transmitida em desfavor da explicação da narrativa.

Também a escolha das palavras tem de ser criteriosa para que o texto plasmado seja sucinto, claro e eficaz de modo a atingir o maior número de seguidores, numa corrida louca para o efémero sucesso das interações do dia.

Somos assim heróis do nosso bairro, pregando hoje, nas homilias digitais, aos fiéis de sempre – os seguidores.

São normalmente narrativas circunstanciais ou dirigidas pela vontade do momento. Mas porque escrita em textos curtos, emotivos e dirigidos nunca explicam nada, ou seja, nada acrescentam ao que se sabe, apenas enfeitam – de acordo com o vento que querem soprar, embora sempre na mesma direcção.

Aqui não há dúvidas, tudo é claro num mundo a preto e branco. Sendo que no preto jogam os adversários, no branco os apoiantes. Redesenha-se assim a velha luta medieval do bem e do mal, na descrição de comportamentos e decisões. E evidentemente que o bem está sempre do lado de quem redige a sentença publicada.

Em pleno século XXI, regressamos ao método dos frades dominicanos que cumprindo as ordens do Marquês de Pombal, enviavam a lista para o Rei que, com o incenso do senhor bispo de púrpura adornado, confirmava a “investigação” apurada, cabendo ao “apurado” purificar-se no calor da fogueira.

Mais próximo de nós, antes de 1974, mas sem redes digitais, pouquíssimos telefones, mínguo correio, mas muitos telegramas, vivendo na paz do senhor (que bem-haja) encontrávamos nos caminhos e estradas “nacionais” os “cantoneiros” que não sabendo ler (como convinha – para quê ter dúvidas, homem! E puxar pelo cérebro…) apontavam os poucos carros que passavam, pois era fundamental manter a “ordem” e saber quem por ali passara e se estava na zona limite de circulação.

Pessoas importantes (vestidas de escuro, mas aqui a representar os bons, portanto brancos), dirigiam-lhes a palavra, num acto de “investigação para apurar a verdade” pois a curiosidade era apenas saber “o que anda ele aqui a fazer”. Não havia fogueira, mas locais de acolhimento de “antipatriotas” que duvidavam da “verdade” e sobretudo da “bonomia” das pessoas de bem que se lhes dirigiam apenas para fazer perguntas. E não é a pergunta o princípio da liberdade? Pois claro, Bina!

O triunfo dos porcos

Quando o vento sopra, e não encontra tolerância nem a liberdade que a promova, depressa se estabelecem mandamentos. Recordamos alguns de George Orwell (versão simplificada), na sua obra “O Triunfo dos Porcos”.

No início da narrativa desenha-se assim a norma:

  1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo;
  2. Qualquer coisa que ande sobre quatro patas, ou tenha asas, é amigo;
  3. Nenhum animal usará roupas;
  4. Nenhum animal dormirá na cama;
  5. Nenhum animal beberá álcool;
  6. Nenhum animal matará outro animal;
  7. Todos os animais são iguais

Contudo as contradições da vida e a evolução da história, levam o autor a amenizar o horizonte e talvez com o evoluir da idade decidiu acrescentar alguns esclarecimentos, sobretudo no 4, 5, 6 e 7 mandamento:

  1. Nenhum animal dormirá na cama com lençóis;
  2. Nenhum animal beberá álcool em excesso;
  3. Nenhum animal matará outro animal sem motivo;
  4. Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais que outros.

Para quê as dúvidas? No mar das redes sociais, encontramos todo o tipo de correntes, mas convém proteger a liberdade e a tolerância. Para que não regressem os mandamentos que nos impeçam de analisar, pensar, definir, escrever, decidir. Também gostar, partilhar, amar e perdoar – aqueles sentimentos que animam os humanos, todos merecedores de espaço e tempo para continuarmos a experimentar o perfume da democracia.

Os nossos jornais servem para isso.

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